segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Maurício Marques no Sarau do Binho


Ana, Oliveira, eu, e o Sarau

A Ana e o Oliveira foram chegando no Sarau do Binho, como convém chegar em qualquer lugar, devarinho. E, devagarzinho foram conquistando a  simpatia e admiração de todos.
“Como era bonito ver aquele casal bonito”
Sempre alegres, passava a impressão de que se amavam e que estavam muito felizes, apenas, pelo fato de estarem ali juntinhos.
Em um mundo que parece atentar contra os relacionamentos amorosos estáveis, Ana e Oliveira é um exemplo para aqueles que acreditam num relacionamento baseado em carinho, cumplicidade e respeito.
Respeito que ao meu ver é o alicerce de todas as relações humanas e determinante na historia de um casal.
Sobre tudo, o respeito próprio que dele advém o verdadeiro respeito ao tempo e espaço alheio.
Ana e Oliveira. Se um pintor pretendesse uma imagem que melhor  retratasse o Sarau do Binho, a imagem não estaria completa se, no canto, em pé, logo na entrada; ou na última mesinha não estivesse aquele casal que assistia a reunião atentamente e aplaudia com entusiasmo as apresentações poéticas.
Eu, pessoalmente, sentia um carinho especial pela Ana, uma forma de gratidão pelo tanto que ela demonstrava gostar da minha poesia.
Sempre me cumprimentava com palavras de carinho e incentivo ao meu trabalho e, quase sempre no final das minhas apresentações, lá vinha ela, me pedir uma cópia da poesia que eu houvesse  declamado.
Lembro-me do dia que pela primeira vez apresentei a poesia “Micróbio Apaixonado.
A Ana gostou muito e o Oliveira também.
Fiquei muito encabulado quando ela me perguntou se eu havia escrito o poema pra ela. Sem saber o que responder, e num tom jocoso, imitando o sotaque nordestino que é a origem do casal, falei:
- Claro que não! Imagina seu eu escreveria uma poesia tão desavergonhada pra mulé do meu cumpadi, num é Oliveira?
O Oliveira sorriu meio sem graça e meneou a cabeça, num sinal de assentimento.
No dia em que lancei o meu primeiro livro  no coreto da praça em Embu das Artes, a Ana foi a primeira pessoa a chegar e comprar o meu livro, e o primeiro autografo, a primeira dedicatória,  acho que escritor nenhum esquece.
Encontrar pessoas como a Ana, é encontrar resposta pra freqüente indagação do “porque” seguir esse caminho. Pessoas que justificam e dão sentido a escolha desse caminho, e também reforçam a motivação necessária pra  prosseguir na caminhada, e enfrentar os desafios que este mundo impõe aqueles que fazem da arte um sentido  de existência.
Naquela reunião do Sarau, a Ana e o Oliveira não estavam presentes. Muitos estranharam, afinal, eles eram os freqüentadores mais assíduos e já haviam se incorporado ao ambiente de tal forma que  a ausência deles não passaria despercebida.
E, no meio da reunião, o Binho, apresentador, pede silencio para uma triste notícia.
Que a notícia era triste, ele nem precisava ter dito, pois o lamento se anunciava em sua voz.
O Binho demorou alguns instantes pra falar. Instantes esses que pareceram horas de temor e angustia.
O nosso grupo já estava bastante ressentido e frágilizado  por dois tristes acontecimentos  fatais, recentes e seguidos.
Estávamos tentando nos recobrar de dois baques fortíssimos; A morte de maneira estúpida e violenta de dois  amigos muito queridos.
O Irã, e o Preto J.
O Iranildo, um rapaz tão da paz, mas tão da paz, que morreu tentando apartar uma briga falando de paz,  levou um tiro na cabeça. Essa deve ter sido a maneira que o seu agressor, um inimigo da paz, encontrou pra que a cabeça do nosso querido poeta não pensasse mais na paz.
Poucas semanas antes, o Preto J, um guerreiro linha de frente nas batalhas pelo  Rip Hop. Um rapper atuante que estava fazendo um bonito trabalho com seu grupo Sabedoria de Vida, e com uma carreira promissora.. Carreira essa que foi interrompida quando ele recebeu  vários tiros a queima roupa.
O motivo? Ter aceito uma carona de moto de um amigo na volta do futebol. Ele não sabia que esse seu amigo estava sendo perseguido por matadores, ou sei lá o que.
“É só maldade do outro lado da cidade.” Aliás, esse é o primeiro verso de uma poesia minha que o Irã mais gostava.
Curiosamente, no mês de novembro do ano anterior a esses acontecimentos, o Binho criou um movimento denominado “No dia 27 de Novembro não matarás nenhum brasileiro.
O Irã e o Preto J estavam presentes naquele movimento poético de protesto contra a violência.
Não imaginavam que pouco tempo depois seriam vitimas dessa violência.
Irã e Preto J, dois guerreiros que partiram pra outros campos de batalhas, onde, quem sabe, os aliados são mais aliados e os inimigos menos covardes.
Agora, o Binho, ali no palco, cabisbaixo, parecia o flach back  de uma cena triste que já havíamos assistido.
O Binho, em silencio, talvez escolhendo  palavras pra dizer, ou simplesmente buscando forças pra falar:
- O Oliveira e a Ana, sofreram um grave acidente com a moto. Ele esta internado. Ela, a Ana, ....  morreu na hora.
Que baque!
Que porrada, eu que estava próximo a saída, seguindo a um impulso, saí rapidamente sem me despedir de ninguém. Pretendia chegar na minha casa o quanto antes, apagar as luzes, me jogar na cama, e colar o travesseiro na cara, como faço quando estou muito  injuriado.
Parei quando ouvi uma voz conhecida me chamando. Era o Rodrigo , um dos poeta que percebendo a minha saída, resolveu sair também e me acompanhar.
Caminhamos em silencio por todo o percurso. Um estranho silencio num momento em que tantas coisas poderiam ser faladas...
Quando chegamos no ponto em que nossas direções mudavam, lembro-me do único comentário que fiz.
-Não vou me ligar mais em ninguém. O preço que a gente paga por se apegar as pessoas é esse...
O Rodrigo continuou em silêncio, mas, invés da despojada batida de mãos , nos despedimos com um forte abraço. Depois cada um seguiu na sua direção, ele pra casa dele, e eu pra minha, onde naquela noite as luzes estariam todas apagadas.,
Na semana seguinte, não houve o Sarau, porque quase ninguém compareceu.
Há algum tempo, as reuniões vinham acontecendo com um publico pequeno de pessoas que lá iam, apenas para assistir as apresentações dos poetas.
É, que com a morte do Irã, seguida a morte do Preto J,  muitas pessoas, assustadas com a violência, deixaram de freqüentar.
Talvez preferiram ficar  em suas casas assistindo televisão, onde as notícias que dão conta da violência tem uma conotação mais virtual, ou menos real, e ao mesmo tempo, sentem-se protegidas contra essa violência.
Mas, agora, a morte da Ana afastou também muitos poetas que lá se apresentavam.
Eu compreendo bem o motivo desses poetas terem se afastado, pois eu mesmo, havia pensado em dar um tempo de freqüentar Saraus e também pro meu trabalho poético.
Pensamos até que o Sarau do Binho fosse acabar, e acredito que só não acabou, graças aos esforços e empenho de alguns poetas que assim como eu, tinham no Sarau do Binho muito mais que um ponto de encontrou ou lugar de entretenimento.
Para esses poetas, o Sarau do Binho tinha um caráter de Movimento Revolucionário.
Sim, pois todas as grandes revoluções que ocorreram no mundo, tiveram como mola propulsora movimentos intelectuais e artísticos.
 Porque o poeta acredita na transformação positiva do mundo através do conhecimento libertário.
Não o conhecimento do didatismo do ensino institucionalizado, mas, o conhecimento advindo das Artes, elementos catalisadores da consciência plena.
É claro que o panorama cultural vigente é muitas vezes desanimador, e num mundo tão voltado aos imediatismo e contrários aos ideais altruístas, fazem nossas batalhas, muitas vezes, parecerem quixotescas.
Mas, como Resistência é a palavra de ordem, insistimos e continuamos a acreditar que esse mundo poderá ser melhor.
No Sarau do Binho, havia um clima quase que familiar, e os vínculos estabelecidos entre as pessoas, foram criados pelo carinho, respeito e admiração mutua.
Pra mim,  aquele lugar, foi onde eu descobri o prazer de ouvir e falar poesias, e também a minha oficina literária onde  eu produzi boa parte deste livro.
E, ainda, o lugar onde encontrei e conheci pessoas que pra sempre estarão gravadas na minha mente e guardadas no meu coração no lugar destinado aos amigos e aos irmãos.
Felizmente o Sarau não acabou. Suas reuniões prosseguiram semanalmente, e devagarzinho as pessoas e poetas foram voltando, outras pessoas que ainda não conheciam o Sarau, foram chegando e renovando o ambiente.
Grande surpresa e muita alegria no dia da volta do Oliveira, ainda se recuperando do acidente, chegou acompanhado da Zá,  irmã da saudosa  Ana.
A Zá, em pouco tempo se revelou amiga e companheira de todos e também uma belíssima poetiza.. Ela é a  prova de que eu quebrei a promessa que fiz de “Não mais me ligar em  ninguém”; e que encontros e despedidas são os  atos  essenciais do grande espetáculo que é viver.
A volta do Oliveira vem nos confirmar aquela máxima de que tanto na vida como na arte, o Show tem que continuar.
Porém, se um pintor, ou fotografo, pretendessem hoje, uma imagem daqueles Saraus, não mais seria possível, pois essas imagens estão gravadas apenas nas mentes e corações  daquelas pessoas que estavam lá, naquele tempo...

                                              Maurício Carvalho Marques, em 
                                                           "Em Branco e Preto"
                                                                         (inédito)
                                                                      Video 
                             Maurício Carvalho Marques no Sarau do Binho





























Ok doutor, ...

OK Doutor, você venceu ...      
       Ok, doutor, o senhor venceu. A Utopia não se realizará.
       Dou-me por vencido... Que força teria qualquer argumento meu diante da prova cabal e fulminante que vossa senhoria me apresenta, o dicionário aberto na página onde a palavra utopia encontra-se grafada. Utopia, projeto irrealizável, fantasia, quimera, etc.
       Sim, doutor, eu estava enganado quando afirmei acreditar na realização da Utopia.
       Como fui tolo e incoerente em acreditar que algo intangível e inatingível pudesse ser alcançado.
       Parabéns, doutor! Como um advogado, o senhor abriu o dicionário, como se este fosse a carta magna e brilhantemente impetrou um mandado de segurança contra a instauração da Utopia.
       Provando que morfologicamente a etimologia contraria a dialética, conferindo a Utopia um caráter totalmente inconstitucional.
       Eu até pensei que poderia convencê-lo ao citar Aldous Huxley em seu comentário sobre o Admirável Mundo Novo, quando ele diz que “O medo da humanidade é que as Utopias se realizam”.
É claro que se Aldous conversasse com vossa senhoria, teria que rever o seu conceito e até mesmo que se retratar por ter dado à palavra utopia um sentido representativo da soma dos anseios e aspirações individuais. A ampliação para o coletivo dos ideais mais românticos e menos egoístas.
A vontade e motivação maior da alma humana resplandecida e verbalizada em um som, inaudível àqueles que insistem em tapar os ouvidos, mas, ecoando num canto de chamamento, convidando à felicidade todos os povos, reunindo-os em uma única nação, onde tremula desfraldada no horizonte a bandeira da paz e do amor maior; epa, desculpe-me, doutor,  acho que agora viajei um pouquinho além,...Mas, buscando expressar-me de uma maneira mais racional, conforme vossa senhoria deve preferir; aquilo que Carl Jung denominou como “Inconsciente Coletivo”.
Ok, doutor, o senhor venceu, a Utopia não se realizará, porque, se ousar contrariar a gramática, será condenada a desaparecer das mentes e espíritos ao desintegrar, fragmentando-se e incorporando-se ao mundo que chamamos realidade. Assim como os nossos sonhos que deixam de ser sonhos quando se realizam; aquilo que um dia foi considerado utópico, como as viagens espaciais, a comunicação a distancia, o computador, a clonagem, enfim, isso e muito mais, hoje em dia não passam de simples questões tecnológicas. Nem ao menos realismo fantástico pode ser considerado.
       Pois é, doutor, mas o senhor jamais se deixaria convencer por balelas, quimeras sofismáticas, não é mesmo, doutor?
       Ok, doutor, mas, por favor, permita-me ao menos em consideração à bravura com a qual debati defendendo a utopia (que não existe), continuar vibrando e conspirando favoravelmente pela realização dos ideais mais altruístas dos homens, pelo menos os de boa vontade.
       O desejo de um mundo novo alicerçado nos mais nobres valores de justiça e liberdade. Um mundo onde a exploração do homem pelo homem não ocorra, simplesmente por este ser um comportamento desumano.
       Onde todos, sem distinção, são iguais em direitos e oportunidades e o  valor  individual   avaliado   apenas   pela     maior    ou    menor   capacidade     para     servir  (independente da conta bancária). Um lugar onde as leis pudessem ser traduzidas em simples recomendações, como: O respeito à natureza e tudo que exista nela em especial o respeito próprio e ao semelhante. Um lugar onde as competições tenham como único objetivo á auto-superação física, mental, artística, cultural e produtiva.
       Uma terra onde todos os seus pomares, suas roças, seus mananciais e riquezas sejam comuns a todos.
       Bem, doutor, ainda me resta o consolo da promessa da terra prometida habitada por seres verdadeiramente humanos.
       É, doutor, o senhor pode até dizer que sou um sonhador, mas vai se preparando..., Porque como disse John Lennon, eu já não sou o único...
       Ok, doutor, mas pensando melhor, vá à merda com seus falsos valores e com a sua falsa descrença no potencial humano de se auto-governar.
       Vá à merda com aquela sua falsa idéia de que o homem só funciona sendo submetido, e que alguns nasceram para serem senhores, enquanto a maioria quase absoluta nasceu para ser escravo...
       Caro doutor. é perfeitamente compreensível a sua postura. Vossa Senhoria defende os seus falsos valores, numa tentativa inútil de neles acreditar. E assim justificar sua condição de homem rico, sem nenhuma contrapartida produtiva. Em um país, onde aqueles que têm trabalho; trabalham tanto por tão pouco, imagino o sentimento de culpa que carregam aqueles que possuem tanto sem nada produzir, culpa esta, a responsável pelas neuroses dos teomaníacos burgueses.
       Ainda mais no seu caso, que o dinheiro foi herança do pai, um político, que fez em sua vida pública o que todos nós fazemos melhor na privada,  e  cujos  vencimentos recebidos, nem de longe justificaria a fortuna que  acumulou e lhe deixou, deixando também o legado de sua má índole e neuroses egocêntricas.
       Assim sendo, doutor, os sonhos de justiça dos oprimidos e vítimas da exploração, são também, os pesadelos dos opressores e exploradores que sempre encontrarão dispositivos legais ou não, valendo-se até mesmo do dicionário, se for preciso, para impedir a Utopia.
       Doutor, pra você, melhor nem pensar que o equilíbrio individual implica no equilíbrio coletivo e que o equilíbrio coletivo é reflexo do equilíbrio individual, porque isso implicaria em responsabilidades, não é mesmo doutor?
       Ok, você venceu, mas a Utopia se realizará, sim! E se o senhor seu avô fosse estéril ou simplesmente tivesse sido castrado antes de procriar, com toda a certeza, ela estaria um pouco mais próxima!
                         
                                                     Maurício Carvalho Marques, em "Barco de Ilusões"
Nen

Barco de Ilusão


                       Barco de Ilusões  
Durante muito tempo naveguei pelos mares da vida, num barco de ilusões.
Um barco sem remos, nem proa, à deriva, com a única finalidade de fugir das tempestades de tédios e calmarias de ansiedades.
E, por navegar à deriva, foram tantas as vezes que cheguei despedaçado em ilhotas perdidas nos oceanos da vida real.
E, aí, as náuseas e enjôos que eu não sentia no barco imaginário, agora eram insuportáveis, e não me restava outra alternativa que não fosse o barco de ilusões.
Os naufrágios se seguiam sucessivamente, ora causados por icebergues de tristezas, ora pela insanidade de um marinheiro perdido num mar de angústias, ora pela fragilidade da embarcação, construída em fantasias.
A cada viagem, um naufrágio, e a cada naufrágio, mesmo despedaçado, uma nova viagem. Sem rotas estabelecidas, sem ao menos uma estrela para me guiar, “porque viajar era preciso, viver sem viajar não precisava.
Quantos tripulantes sucumbiram, outros tantos obrigados a embarcar um navio cheio de grades rumo ao porto chamado liberdade.
A cada dia este marujo se tornava mais marcado, as viagens agora compulsivas, e as paisagens, já não mais coloridas, e sim, cinza-fúnebre.
E, à deriva só restava aguardar o naufrágio final que redimiria,  visto que as águas vivas,  haviam queimado e feito arder minha alma a tal ponto que não via mais saída pois as marcas eram profundas, e as seqüelas visíveis.
Até que num novo choque com alguma embarcação que encalha os encalhados, quando estava prestes a me atirar, eis que no horizonte me surge uma luz. No início um tanto opaca, mas seu brilho foi aumentando, aumentando, e iluminou meu coração.
Era a luz de Deus. Do Deus dos desgraçados, dos marinheiros desgarrados, dos náufragos despedaçados.
Esta luz tão intensa, hoje é a luz que me guia, não nos mares revoltos dos pesadelos das drogas e do álcool, mas sim em terra firme. Troquei o barco de ilusões por um de dignidade, construído não de fantasias, mas sim de amor a Deus, a mim e a todos os navegantes.


Maurício Carvalho Marques, em “Barco de Ilusões”
*Esse texto que dá titulo ao livro Barco de Ilusões de Maurício Carvalho Marques, faz parte da Coletânea "Literatura Marginal" da Editora Agir (2004) Edição Especial da Revista Caros Amigos, com o mesmo titulo, (2003) e também foi publicado por vários Tabloides de Municipio.